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Depois de sete sessões, a Graça surpreende com um desabafo inesperado: a poesia não lhe diz nada.

Diz que não se identifica, que não lhe está a fazer sentido, que tem feito um esforço mas não se sente motivada. Queixa-se também da falta de memória para conseguir decorar os poemas.

O António admite que não estava à espera. Até porque ao longo das sete sessões a Graça sempre foi dizendo os poemas. E bem.

Talvez seja apenas preciso um pouco mais de confiança. Ou de mudar a forma como olha para a poesia. E isso também faz parte deste projeto.

O António tenta então outra abordagem.  Pede-lhe que trabalhe o poema “Inquietação” mas começando apenas de ler. Não precisa decorar. Sugere-lhe que leia muito devagar. Com alma. Como que a olhar para dentro.

Nas partes em que repete, acelerar. Correr mais. E acima de tudo olhar para o poema como um desabafo a alguém de que goste. Uma conversa, um segredo que se partilha com quem nos segura a mão.

Ambos leram o poema. Treinaram. Corrigiram erros. Encontraram pontes. E no fim, ouve-se a estrofe perfeita: A Graça diz que podem contar com ela!

A poesia é um caminho que cada um faz ao seu passo.

No caso do Alexandre, o caminho tornou-se romântico: o poema “Impossível”, que têm vindo a trabalhar, quer dizê-lo ao seu amor.

O António dá-lhe algumas sugestões. Talvez experimentar dizer o poema com um ar meio malandro, de safadeza, porém dar ênfase no “mas”:

“Eu posso amar-te como o Dante amou, // Seguir-te sempre como a luz ao raio, // Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,// Lá essa é que eu não caio!”

E enquanto treina, deve tentar imaginar a pessoa a quem fala. Sentir a poesia em vez de apenas declamá-la.

O Alexandre explica que está em regime ambulatório. Mas, como está na Madeira, fica no Centro mais tempo. Faz parte de um programa de prevenção à recaída. E o António pede-lhe que aproveite o tempo e tente dentro de 15 dias ter o poema pronto para oferecer ao seu amor. Pede-lhe também que grave esse momento. Poderá ser interessante para integrar no espetáculo final.