nTnD

Plataforma Zoom //

Se a poesia nos vem de dentro, é para dentro que vamos.
Em que pensamos quando estamos sozinhos? O que nos enerva? O que nos entristece ou entusiasma?
A pergunta é lançada aos 4 participantes da clínica de Reabilitação Linha D’Agua, como isco que se lança em busca de palavras. Umas a seguir às outras. Que assim se puxam de dentro para fora.

Fernando começa. Alcoólico e cocainómano, está há quase dois meses no centro e quando está só diz que pensa em ficar sóbrio. Pensa numa vida de sobriedade, sem adições. O seu maior desafio. O seu pensamento recorrente.

Já Alexandre, pensa nas duas filhas. A brincar na areia, na praia, ao pôr do sol.
A tentar novo tratamento depois de várias recaídas no álcool e cocaína, conta que já fez teatro amador. Já viveu em muitos países. E diz que quando está com ‘os seus botões’ é um sonhador. O que mais o incomoda? A ganância. Pensa muito na ganância das pessoas e isso mexe com ele de forma negativa.

Graça é alcoólica e está no terceiro tratamento.
Escolhe falar de raiva. Da raiva que sente por ter chegado aqui. Ao ponto de precisar de ajuda para fugir ao álcool. Mas também há espaço para gratidão. A gratidão que sente por poder estar a recuperar e não ter perdido nenhuma das três filhas.

Uma gratidão que Rui entende e partilha. Os vícios do jogo e do álcool trouxeram-no a este centro. Mas quando está sozinho, diz que um dos pensamentos que vive dentro dele é justamente essa gratidão que sente. Gratidão por aqueles que o rodeiam, pela família, pelos que o têm apoiado neste caminho, muitas vezes sombrio.

A cada um dos quatro, o António Fonseca deixou conselhos: À Graça, que experimente a escrever quando sente raiva. Ao Fernando que agarre nessa vontade de voltar a ficar sóbrio e a use e trabalhe em exagero, no faz de conta, no campo da imaginação.

A todos é pedido que refletiam naquilo que sentem agora. Que percebam esses sentimentos. Que os identifiquem. Será daí que irão partir para escolher os textos com que irão trabalhar neste projeto.
Textos que, não sendo seus, poderiam ser.
Poesia com palavras de outros mas em que se revejam. Palavras que vão decorar para apresentar depois nos teatros de Vila Real e Bragança. Palavras que só conseguirão repetir se lhes falarem à alma. Se lhes saírem de dentro.

E nesta viagem, viramo-nos para dentro para deixar sair, para fora, os fantasmas que nos habitam.