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Plataforma Zoom //

Há duas caras. Um ecrã. E cartas para ler.

A Aldara pede à Marta e à Cláudia que se aproximem o suficiente para que fiquem as duas dentro dos limites do ecrã, de forma confortável. É preciso que se façam ouvir de forma limpa.

Vão ler uma carta. A duas vozes. Entrecruzadas uma com a outra.

O silêncio de uma será o comando da outra. Uma pausa da Marta dará a Cláudia o momento para ser ela a seguir com a leitura. E pode haver momentos em que estão a ler as duas ao mesmo tempo e uma dá o privilégio à outra através de baixar a voz.

O foco estará hoje só no tempo, no ritmo. Não na voz. Como tal podem enganar-se, sem receios de falhar. A Aldara pede que tenham a calma necessária para se ouvirem uma à outra. Sem ler. Como se estivessem a contar a alguém que escreveram uma carta e o que nela diziam.

De seguida, o desafio estende-se ao espaço que ocupam: Cada uma deve ir falando enquanto executa tarefas simples: sentar na cadeira, abrir a porta, prender a porta com a cadeira. Tudo tem de caber neste espaço digital que é partilhado, e as tarefas têm de ser feitas com o que têm na sala e de forma a que se consiga sempre ouvir o que dizem.

 A Aldara pede depois que façam uma pausa e uma espécie de balanço. Quer saber o que gostaram mais até agora, ao longo de todas as sessões.

A Marta gostou da sintonia e espontaneidade do exercício que fizeram as 3, no mesmo computador, começando sempre com a frase “ Eu lembro-me”.

A Cláudia lembra-se de dançar a carta no corredor e diz que gostou de ver a Marta no exercício de limpar o ecrã. Diz que gostou mais de ver do que de fazer.

E a Marta, admite que gostou de ler à vez, porque as cartas misturavam-se e fazia sentido, as duas juntas.

As obras de artes são como a comida: só faz sentido cozinhá-la se alguém a comer, diz Aldara. Na sua visão, a arte só fica completa quando se mostra. A partilha também faz parte do processo artístico. A arte revela-se nesse momento em que percebemos o impacto que teve no outro.

E é justamente esse momento que começa a ser preparado. Para a apresentação final, todas concordam com o guião: começam com a limpeza do ecrã com som; depois a leitura conjunta, mas em computadores diferentes; dançam a carta no corredor, depois o exercício ‘Eu Lembro-me’ e acabam com o desenho.

E a sessão segue com os exercícios por essa mesma ordem. Preparam as duas salas. Filmam o espaço e organizam a disposição para conseguirem dançar.

A devoção, a densidade com que cada uma se entrega deixa Aldara emocionada.

A Marta dizia que para estes exercícios era necessária muita imaginação, mas na verdade, Aldara diz que a imaginação não tem fim. Às vezes pode ir abaixo porque estamos subnutridos de informação. Mas será só isso. Uma fraqueza momentânea. Nunca termina.